RPPN na Mata Atlântica: uma história inspiradora pela conservação do bioma

A preocupação pela conservação da biodiversidade da Mata Atlântica é compartilhada em diferentes níveis por organizações ambientais, público e privadas e podemos dizer que também por um “time” de proprietários particulares que dedicam investimentos, energia, tempo e muito suor para gerenciar em suas terras a chamada Reserva Particular do Patrimônio Natural, ou RPPN. Uma RPPN é uma categoria de Unidade de Conservação criada única e exclusivamente pela vontade do proprietário rural comprometido com a conservação da natureza.

De acordo com os dados do Cadastro Nacional de Unidades de Conservação, o Brasil possui 1017 RPPNs, sendo 660 delas no bioma Mata Atlântica e apenas 74 no estado de São Paulo.

Em breve, esse número deve subir para 75. Marcelo Haddad, coordenador técnico da Sustainable Carbon e sua esposa, Mariana Santos (que também já foi nossa colaboradora) estão em processo de criação de uma nova RPPN na Mata Atlântica, após adquirirem uma propriedade rural na região de Atibaia, em São Paulo.

Conversamos com eles para conhecer mais de perto essa história e, quem sabe, inspirar outras iniciativas parecidas pela conservação da biodiversidade na Mata Atlântica.

Um legado

A ideia nasceu de um sonho antigo do Marcelo, obstinado desde muito jovem a deixar um legado positivo pelo meio ambiente.

“A RPPN é uma Unidade de Conservação privada que se torna perpétua, ou seja, fica gravada na matrícula do imóvel, mesmo que a propriedade seja vendida ou deixada como herança. Isso significa que essa propriedade será uma reserva pra sempre”, contou.

Para isso, o casal buscou diversas propriedades em São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais e Paraná, mas sempre em regiões de Mata Atlântica. “Esse é um dos biomas mais degradados do país e queremos contribuir para preservar sua biodiversidade”, explicou Marcelo.

A região de Atibaia já era uma das preferências do casal, já que está perto de São Paulo (família), do Sistema Cantareira (principal manancial da cidade de São Paulo) e faz a conexão entre remanescentes de Mata Atlântica da Serra da Mantiqueira com a Serra da Cantareira. O que a torna um corredor de biodiversidade.  

Ao visitarem a atual propriedade, de início Marcelo não gostou muito. Desejava uma área de mata fechada, sem muita infraestrutura e para poder se aventurar em trilhas e acampamentos, como sempre gostou. Foi Mariana que o convenceu a usar toda sua expertise em reflorestamento para dar um exemplo para a sociedade de que é possível tornar uma área degradada em uma floresta novamente. “Comprar uma área pronta tinha prós e contras, mas já que queremos deixar um legado, que seja um serviço para a sociedade. Aqui temos custos financeiros e até pessoais, mas significa este serviço para a sociedade”, destaca Mariana.

O casal já retirou ao menos um terço do eucalipto que cobria a propriedade, sem auxílio de veneno ou agrotóxico. Já realizou o plantio de aproximadamente 4 mil mudas de mais de 120 espécies nativas diferentes da Mata Atlântica, inclusive com a ajuda do time da Sustainable Carbon, além de já terem melhorado a proteção de uma das duas nascentes da propriedade.

A ideia é chegar a mais de 40 mil mudas plantadas, substituir todo o eucalipto e ver ressurgir novamente a floresta nativa, tudo isso empregando mão de obra local, proporcionando a geração de renda em comunidades vulnerabilizadas.

Para conseguir parte do dinheiro para o reflorestamento, o casal conta com o apoio dos amigos com “vaquinhas” online. A última possibilitou duas ações seguidas de plantios de mudas, fazendo uso, inclusive, de uma técnica japonesa diferenciada que aumenta as chances de sobrevida e de crescimento das plantas.   

E se você também despertou o interesse em uma RPPN, o que é preciso saber?

“A primeira coisa é saber que a RPPN é muito restrita, só são possíveis alguns usos como ecoturismo, conservação, pesquisa, educação. Há um projeto de lei para mudar, mas hoje, inclusive, não pode ter viveiro e coleta de sementes”, alerta Marcelo.

Isso significa que ainda há muito pouco retorno financeiro para quem deseja investir na conservação da biodiversidade. Pelo contrário, há muito trabalho e muitos custos para manter e gerenciar uma propriedade rural, sem uma fonte de receita única.

“Mesmo em RPPNs bem consolidadas, a fonte de renda é sazonal. É uma gestão criativa”, completa Mariana.

O desafio é também uma crítica já que o Brasil, e também o mundo, ainda não avançou nos chamados Pagamentos por Serviços Ambientais, uma remuneração oferecida para quem protege, conserva ou restaura os recursos naturais. Um exemplo citado pelo casal acontece em Extrema, cidade do interior de Minas Gerais, que desde 2005 mantém o projeto Conservador de Águas, reconhecido como o de maior sucesso do país em Pagamentos por Serviços Ambientais ao remunerar produtores rurais pela conservação de nascentes.

RPPN na Mata Atlântica Mari e Marcelo

Qualquer pessoa pode fazer a mesma coisa pela Mata Atlântica

Ao entrar com o procedimento de criação da RPPN na Mata Atlântica na Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Marcelo conta que a senhora responsável pelo setor relatou algumas outras histórias de proprietários rurais que optaram pelas RPPNs. “Ela nos disse que fazemos isso como uma doação para o próximo. E essa é mesmo a mensagem principal. E qualquer pessoa pode fazer o mesmo pela Mata Atlântica”. E Mariana conclui:

“Não podemos desistir do Meio Ambiente. Certamente não vamos resolver o problema da Mata Atlântica, mas é uma gotinha no oceano que precisa ser feita, independente de lideranças políticas. Precisamos fazer a nossa parte”.

Sobre a Mata Atlântica 

Um dos biomas mais ameaçados do país é também aquele que abriga a maior parte da população. Cerca de 72% dos brasileiros residem em regiões da Mata Atlântica, por ser o bioma mais característico da nossa região costeira. E é simplesmente impossível estimar a importância dos serviços essenciais prestados por ela como regulação do clima, agricultura, pesca, energia elétrica, turismo, abastecimento de água, apenas para citar alguns. Não obstante tudo isso, a Mata Atlântica conta com apenas cerca de 12,4% da sua cobertura original, de acordo com dados da SOS Mata Atlântica.

Voltar para o blog

Assine a nossa newsletter

Somos pioneiros em Gestão Climática e geração de créditos de carbono com impacto positivo.